“Coragem de ser radicalmente vivos, e não ficar barganhando a sobrevivência.” Essa frase, do livro A vida não é útil, de Ailton Krenak, me atravessou. A obra fala sobre a vida não ter uma finalidade prática ou utilitária, mas sobre ser vivida e apreciada em sua complexidade, em conexão. E foi a partir dessa ideia de “barganhar a sobrevivência” que comecei a refletir.
Sabe quando entramos no modo automático do dia a dia? Acordar, fazer o que precisa ser feito, dar conta do básico e tentar chegar inteiro até o fim do dia. É humano viver assim. Há momentos em que sobreviver já é muita coisa. Em alguns períodos, focar no automático, no essencial, sem a exigência de encontrar um grande sentido, é necessário.
Ao mesmo tempo, estar em modo sobrevivência agora não significa que nunca mais vamos nos reconectar com uma vida cheia de sentido. Aos poucos, mesmo diante das dificuldades, pode surgir espaço para aquilo que Krenak chama de “ser radicalmente vivo”: permitir-se sentir de verdade, viver com mais presença, sem buscar utilidade para tudo o tempo todo.
Ser radicalmente vivo não é ignorar limites nem fingir que os problemas não existem. É ter coragem de sentir o que é possível sentir, de agir a partir dos nossos valores e de escolher, no meio da correria, do caos e até do vazio, pequenos gestos de autenticidade. É nesse movimento, feito passo a passo, que a vida deixa de ser apenas sobrevivência e começa a ganhar mais presença, sentido e liberdade.
E eu te pergunto: o que te faria sentir um pouco mais vivo agora? Um passo pequeno, dentro do que é possível hoje.
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