Cidade natal

Toda vez que volto à minha cidade natal, é como abrir uma caixa de memórias. As ruas, o cheiro do ar, os lugares que marcaram minha história… tudo parece guardar partes de mim que eu nem lembrava que existiam. É uma mistura estranha de pertencimento e distanciamento, como se ainda houvesse um pedaço meu ali, mas, ao mesmo tempo, eu já não coubesse mais naquele lugar.

A cidade continua, mas sem mim. Ela muda sem pedir permissão, enquanto eu também me transformo longe dela. Caminhar por essas lembranças me faz revisitar quem fui, algo que, por vezes, doeu tanto que me deu vontade de apagar. Com o tempo, porém, percebi que não se tratava de apagar ou consertar o passado, mas de ressignificar, de acolher.

O lar de antes se tornou um lugar de visita, e eu, uma viajante entre o que foi e o que se é. Minha história faz parte de quem sou, e olhar para ela me ajuda a entender quem me tornei. Não se trata de tentar se encaixar novamente, mas de compreender que alguns lugares moram mais em nós do que nós neles. É carregar o pertencimento dentro de si, sem precisar de um lugar para caber.

Na terapia, muitas vezes somos convidados a revisitar momentos do passado não para reviver as dores, mas para compreendê-las e integrá-las ao nosso processo de crescimento. Ressignificar não é esquecer ou apagar, mas aprender a olhar para os eventos sob uma nova ótica, mais acolhedora e menos carregada de sofrimento. E você, como tem escolhido olhar para a sua história? Ela ainda te aprisiona ou te impulsiona para o próximo capítulo da sua jornada?

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